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Saúde

7 de Outubro de 06
Saúde
Ações dos climas nos organismos humanos

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Da Redação

Alcyr Azzoni (*)

Você vai sair de casa e observa que não há nenhum sinal de nuvem no céu, que está com a cor esbranquiçada. O Sol age forte, provoca mal-estar, e faz a pele arder.

Entre num supermercado, shopping, agência bancária ou lotérica e vai encontrar pessoas falando alto nas filas, agitadas, tensas, impacientes.

Você é professor(a) e ao entrar na sala de aula encontra os alunos irrequietos, agitados, rebeldes.

Chega em casa de volta, e encontra uns agitados, falando alto, outros prostrados, como se dormir fosse a única coisa importante a fazer.

No trânsito, uns dirigem afoitamente, impacientes com a demora do semáforo, fazendo manobras arriscadas, buzinando.

Aqui e ali, nos bares, gente envolvida no alcoolismo, bebendo completamente "fora de hora", nos seus piores dias...

Pessoas deprimidas exigindo ajuda e assistência médica, prontos-socorros abarrotados de gente com problemas respiratórios, cardíacos.

O que pode haver em comum nas situações comentadas?

Embora não seja possível esgotar as explicações, há algumas informações úteis, esclarecedoras a respeito do que está ocorrendo.

Sabemos que em alguns países localizados fora do "mundo tropical" há climas em que as quatros estações do ano são perfeitamente identificadas no ritmo da Natureza, por exemplo, no que acontece com a vegetação (flores, queda das folhas) e com animais.

Cientistas descobriram que, embora o ser humano não hiberne , como os ursos por exemplo, a composição química do nosso organismo muda segundo as estações do ano.

No inverno , algumas pessoas queimam mais gorduras que em outras estações e essa modificação obedece um ciclo, que pode ser vestígio do que foi herdado do homem primitivo, que poderia hibernar, ou reduzir sua atividade durante o inverno.

A Biometeorologia é a ciência que estuda como as condições climáticas afetam os seres vivos.

No inverno , o metabolismo governa o organismo, preparando-o para se conservar e resistir. Os vasos capilares que levam sangue a cada uma das células da superfície do corpo, cessam praticamente sua atividade. Ficam menos resistentes a certas doenças, como as cardiovasculares .

Se o estado do tempo muda bruscamente, o organismo se modifica com rapidez, para manter constante a temperatura e outras funções vitais. Se isso não acontecesse, poderia ocorrer uma lesão cerebral em minutos...

A 20º. Celsius, 50% de umidade relativa do ar e sem vento, sentimo-nos confortáveis mas, mesmo assim, o corpo faz esforços para manter sua temperatura média de calor interno de 37º.

O principal "termostato" do corpo é o hipotálamo , uma parte do cérebro. Ele gasta de 1 a 5 minutos para que o corpo consiga se defender das quedas de temperatura, como quando você se levanta na manhã de inverno, removendo cobertores...

No frio extremo, o hipotálamo bloqueia todo o sangue que corre perto da pele, fazendo com que ela fique pálida, rígida e fria, para alimentar o coração e o cérebro.

Reage rápido também no calor, ao enviar sangue para junto da pele, para que os vasos se dilatem, acelerando a perda de calor.

Com outros sistemas de controle do organismo, o hipotálamo estabelece um equilíbrio cooperativo, durante o "verão-inverno", como uma aclimatação . As estações de transição, primavera e outono, têm maior tensão, sobretudo a primavera.

Tonturas, sensação de sufocação, mal-estar e moleza no corpo são queixas comuns nos meses de verão. Essas sensações, no entanto, são conseqüência de mecanismos adotados pelo organismo humano, para diminuir a sua temperatura interna e deixa-la entre 36 e 37,5º. Em dias muito quentes, um volume maior de sangue é desviado para a superfície da pele, permitindo que o excesso de calor do organismo seja transferido para o ambiente.

O mal-estar acontece justamente pela redução do sangue em outros órgãos.

Ex. náuseas após as refeições, como resultado de uma redução do sangue no aparelho digestivo.

Pessoas saudáveis não têm problemas sérios, mas as alterações são significativas naquelas pessoas que apresentam alguma sobrecarga para o corpo, como os obesos e as mulheres grávidas.

No verão, a temperatura do meio ambiente é maior do que a ideal, e o corpo precisa perder calor, os vasos sangüíneos dilatam e mais sangue passa pela superfície da pele, para liberar o excesso de calor, fazendo crescer a produção de suor.

Quando este evapora, resfria o sangue que passa pela pele e vai desaquecer os órgãos internos.

A "moleza" no corpo é uma defesa do organismo para impedir que a contração da musculatura produza ainda mais calor. São os "truques" para o corpo manter a temperatura dentro da faixa ideal...

Lembremos, de passagem, que a "primavera" em Araraquara só é identificada pela floração de algumas espécies vegetais como os flamboyants, ipê amarelo, e confunde-se com o verão, nas altas temperaturas que chegam aos 35º.C em certas tardes, e nas pancadas de chuvas, por vezes acompanhadas por trovoadas.

Respostas do organismo humano

Quando o hipotálamo e outros órgãos "sentem" que chegou a primavera, a mudança de metabolismo do inverno para o verão pode começar com rapidez "explosiva", para alguns indivíduos sensíveis às condições climáticas; a acidez do sangue poderá aumentar, níveis de colesterol e de açúcar podem "inundar" as veias.

Esse súbito afluxo de energia faz as pessoas ficarem extremamente agitadas; os hormônios lançam-se no sangue e pêlos da barba e do cabelo quase duplicam seu crescimento. É insuportável para alguns essa tensão provocada pela transição da primavera.

Aumentam as internações hospitalares e nas clínicas psiquiátricas, os casos de alcoolismo e as taxas de suicídio.

Na primavera, massas de ar frio das regiões polares são forçadas a dar lugar às massas de ar quente das regiões tropicais e subtropicais, pois o Sol "está de volta" para o hemisfério: um dia muito quente dá início ao "reajustamento" do organismo à nova estação, mas ele é "sacudido", quando outra massa de ar frio ainda entra na região, trazendo um frio intenso, de final de estação...

A primavera e o outono são períodos de ventos fortes cuja vibração pode afetar o corpo, embora não seja ouvida. Cientistas descobriram que tal infrasom influencia o sistema nervoso central. Esses ventos quentes e muito secos chegam a ser chamados "ventos das bruxas", pois muitas pessoas os associam com doenças, acidentes de trânsito e de trabalho, crime e loucura.

É, por exemplo, o siroco que sopra na Itália, ou o chinook, do noroeste dos EUA.

Há várias décadas esses ventos e seus efeitos vêm sendo estudados, em vários centros universitários de países com regiões de clima desértico ou semi-árido, nas quais os efeitos são acentuados.

Em Israel, 30% da população sofre de sintomas provocados pelo vento quente , o sharav. Para muitos, as dores de cabeça, náuseas, irritabilidade, incapacidade de concentração, começam 12 horas antes do vento chegar.

Ionização- os pesquisadores constataram que durante este período, o ar no trajeto do vento quase duplica seu conteúdo de íons - moléculas carregadas de eletricidade. Além disso, a proporção de íons positivos para negativos , que normalmente é de 1,2 para 1, aumenta muito à medida que o vento se aproxima.

O distúrbio no equilíbrio dos íons causa importantes alterações nos organismos das pessoas sensíveis às condições climáticas em mudança. Muitas delas começam a expelir pela corrente sanguínea, grandes quantidades de serotonina, hormônio que conduz as mensagens no interior do cérebro.

Outras pessoas vão sofrer de hiperatividade da glândula tireóide , cujos hormônios são vitais para o metabolismo. E, ainda, outras vítimas sofrem da "síndrome de exaustão da supra-renal", por produzirem adrenalina demais, gerando tensão nervosa, depressão e fadiga.

Outras pesquisas na Califórnia revelaram que os íons negativos reduzem os níveis de serotonina no sangue, tecidos e cérebro e que os íons positivos aumentam os níveis de serotonina. O antídoto que chegou a ser prescrito foi um aparelho para gerar íons negativos, concluindo-se que o excesso de serotonina era a causa das doenças provocadas pelo chegada do vento.

Médicos descobriram também que o ar negativamente ionizado pode ajudar no processo de cicatrização de queimaduras, e ter um efeito calmante em algumas pessoas.

Há uns 25 anos houve uma retomada da mania de geradores de íons negativos, como havia ocorrido nos anos 60 do século passado...

Há cientistas que duvidam do impacto dos íons na saúde humana, mas biometeorologistas acham que, como o organismo se modifica quando o tempo muda, os médicos deviam ter em conta o clima, ao acompanharem casos como os acima citados.

Muitos medicamentos podem ser largamente utilizados juntamente com as condições climáticas. O certo é que nosso organismo pode detectar variações mínimas na pressão atmosférica, e ajustar rapidamente as pressões do sangue e da água para compensar.

A temperatura não é, portanto, o único fator do clima, que intervém.

Volto ao ponto de partida deste texto: não vivemos num deserto, nem em região semi-árida, apesar dos cinco meses ou mais de seca que têm sido registrados na região, e que coincidem com o período de queimadas nos canaviais. Há, todavia, algumas semelhanças entre o que ocorre aqui em Araraquara, e algumas das situações acima descritas, e que são relacionadas às entradas de massas de ar subtropical, muito seca, abafada, que têm origem no noroeste semi-árido da Argentina e Chaco paraguaio, passando pelo Pantanal antes de alcançar a região central paulista.

Essas massas de ar reduzem a níveis de semi-aridez a umidade relativa do ar, e provocam forte elevação de temperatura durante dias que antecedem a entrada de massas de ar frio, ou de massas de ar quente mais úmidas (estas da Amazônia ou do Oceano Atlântico) trazendo pancadas de chuva, com trovoadas e fortes ventos.

É curioso como a ocorrência de alguns relâmpagos, na chegada de uma chuva que rompe o abafamento, o calor, a baixa umidade relativa do ar, parece "tirar com a mão" o mal-estar que havia...

O conhecido vento "noroeste", que traz dias de calor seco e muito mal-estar, há de ter alguma culpa a respeito de situações apontadas naquele primeiro parágrafo. Provar, não é tão simples assim para nós, que apenas recolhemos estas anotações, leituras, observações, para oferecer aos leitores, para que tirem suas próprias conclusões, identifiquem casos parecidos.

Não podemos fazer confusões, entretanto, ao querer entender alguns fatos que observamos: o desemprego, o baixo salário, os problemas sociais, de saúde, dentre outros, podem ser suficientes para explicar o alcoolismo, ou a depressão, por exemplo.

Associar aumento dos casos de alcoolismo, violência, com os dias próximos ao recebimento de salário desemprego, pode não "coincidir" com mudanças no estado do tempo...

Até mesmo as queimadas nos canaviais, seguidas (mais nos finais de semana...) das chuvas de carvãozinho, também têm parte de responsabilidade...

A saúde e o conforto de cada um podem ser ampliados, com melhor entendimento do que está acontecendo com nosso organismo, de como ele se adapta ao clima.

Recuperei estas informações, divulgadas há mais de uma década, sem atualizar informações, que entendo podem ser largamente buscadas nos meios atuais de acesso às pesquisas.

(*) É docente no Curso de Turismo da UNIARA, e aposentado na FCL UNESP, Campus de Araraquara.



 
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